A deflação retorna

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(GAZETA DO POVO) – No quarto mês seguido de desaceleração do IPCA, o índice oficial de preços entrou no campo negativo, como havia ocorrido entre julho e setembro de 2022. A deflação de 0,08% é mínima, mas ainda assim é deflação, e, mesmo que tenha sido uma política governamental a responsável pela diferença entre um índice positivo e negativo, a composição do IPCA de junho tem elementos interessantes que certamente pesarão em agosto, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne novamente para decidir se mantém ou altera a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano.

O programa de descontos para a compra de veículos novos, instaurado pelo governo federal para atender as montadoras, fez cair o preço dos automóveis novos em 2,76% e o dos usados em 0,93%. O impacto do item “automóvel novo” no IPCA foi de -0,09 ponto porcentual, ou seja, sem o incentivo (criticável, aliás, por muitos motivos) o IPCA teria ficado pouco acima de zero. De certa forma, repete-se assim o que ocorreu no ano passado, quando a grande responsável pela deflação não foi um processo orgânico de queda nos preços, mas uma canetada – no caso de 2022, a redução nos impostos sobre combustíveis, energia elétrica e telecomunicações, aprovada pelo Congresso.

Já havia bons argumentos na reunião anterior para uma redução na Selic, e eles ganharam força com a deflação de junho. No entanto, também havia razões bastante sensatas para manter a taxa, e elas ainda não desapareceram por completo

Os veículos fazem parte do grupo Transportes, que também se beneficiou com reduções de preços dos combustíveis – quedas de 1,14% na gasolina, 5,11% no etanol e 6,68% no óleo diesel. A maior deflação entre os nove grandes grupos medidos pelo IBGE, no entanto, veio de Alimentação e bebidas, que recuou 0,66%, em grande parte graças a quedas em commodities como a soja. A oleaginosa também serve de insumo para a pecuária, e por isso soja mais barata também significa custos de produção mais baixos para outros produtos, como carnes e leite, que também caem de preço. Também é importante verificar que as pressões altistas, além da passagem aérea, que tem oscilado muito de mês para mês, vieram de preços administrados como energia elétrica, água e esgoto, com reajustes autorizados em alguns estados.

A queda nos preços das commodities, principalmente no mercado internacional, tem sido repetidamente mencionada no Copom em suas atas e comunicados como “risco de baixa” para a inflação atual e para as expectativas futuras. Assim, o movimento atual certamente será monitorado pelos diretores do Banco Central na próxima definição da taxa de juros; caso não se trate de um movimento repentino, efêmero e facilmente reversível, mas de uma tendência, essa queda oferecerá mais um argumento para uma eventual redução na Selic. Importante, neste contexto, é que o Copom não dê ouvidos à gritaria do governo, que será intensificada pela deflação de junho, e faça uma análise bastante criteriosa e técnica.

Já havia bons argumentos na reunião anterior para uma redução na Selic, e eles ganharam força, inclusive com o acumulado de 12 meses estando abaixo da meta de 3,25% estipulada para 2023. No entanto, também havia razões bastante sensatas para manter a taxa, e elas ainda não desapareceram por completo. O Copom sempre trabalha de olho no futuro, e as expectativas para a inflação podem não estar devidamente “ancoradas”, para usar o termo preferido do BC. Além disso, há pressões fortes vindas dos serviços – a inflação acumulada de 12 meses para o setor é de 6,21%, quase o dobro do IPCA acumulado. Por fim, o arcabouço fiscal ainda não foi definitivamente aprovado, e a ministra Simone Tebet já admitiu que talvez não seja possível zerar o déficit primário em 2024, trazendo de volta a lembrança de que um dos melhores meios de conter a inflação e ajudar a reduzir os juros ainda é promover responsabilidade e austeridade fiscal – algo a que esse governo tem verdadeiro horror.

 

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