CHARLES DARWIN, AGRO E (DES)GOVERNO – Por Evaristo de Miranda

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Em 12 de fevereiro celebra-se o nascimento de Charles Darwin em 1809. A comemoração é mundial, com o objetivo de promover a área científica. Darwin revolucionou com sua “teoria da evolução por seleção natural”, elaborada e mantida em segredo por 20 anos, e enfim publicada em 1859.

Para Darwin, as espécies vivas, inclusive a humana, tem ancestrais comuns e evoluem no tempo. Entre azar e necessidade, sobrevivem as mais bem adaptadas ao ambiente. Não as mais fortes ou inteligentes. Se reproduzem mais, se diferenciam e transformam a vida por extensos períodos.

Freud considerou a revolução darwiniana uma das três feridas narcísicas da humanidade. A primeira, ele atribuiu ao padre Nicolau Copérnico e sua tese heliocêntrica: a Terra não é o centro do Universo e sim um pequeno planeta periférico, em torno do qual o Universo não está a girar.

A segunda ferida narcísica deve-se a Charles Darwin. Até ele, o homem era visto como centro e ápice da criação. Darwin demonstrou: a humanidade é uma emergência tardia, de um processo evolutivo natural. Espécie não prevista, esperada ou necessária à evolução da vida na Terra.

A terceira sem modéstia, Freud se auto atribuiu: o aparente mecanismo consciente do pensamento humano, na realidade, procede em grande parte de fenômenos inconscientes. O homem se crê consciente no pensar e agir, e a maior parte do tempo está comandado e reage ao seu inconsciente.

A ferida darwiniana foi a de maior repercussão: afirmar o ser humano como emergência tardia na evolução, espécie não necessária. O humano foi excluído de sua representação do Universo, de sua centralidade. Antes tudo esperava e girava em torno do homem. Havia uma criação voltada para ele.

Darwin descentralizou o homem em relação à natureza e o inscreveu no universo da vida, mais próximo dos viventes. Humanos são parentes de peixes, pássaros e árvores. Não há mundo exterior a envolver humanos. Há um conjunto: seres vivos e humanos são genealogicamente vinculados.

Darwin criou parte de sua teoria ao observar agricultores selecionando melhores animais e sementes. Princípios darwinianos (seleção artificial) moldaram o melhoramento genético da soja, milho, feijão, arroz, trigo etc. Embrapa, universidades e empresas fazem isso cientificamente. A seleção assistida por marcadores identifica genes de resistência à seca ou maior produtividade. Pesquisadores aceleram a evolução, cruzam e obtém indivíduos com essas características. Há muitos outros exemplos.

O Darwin Day vai além de homenagear um homem. Busca promover a área científica. Neste contexto e data, qual a prioridade do atual governo para a ciência e a agropecuária? Em 2026, o orçamento das universidades federais será de R$ 7,85 bilhões, queda de 45% em relação a 2014, mesmo com o aumento de 59 instituições para 69. A Embrapa enfrenta crise orçamentária severa, contingenciamentos e déficits de R$ 200 milhões.

Na Embrapa, os recursos disponíveis têm sido insuficientes para o custeio. Unidades de pesquisa enfrentam a ameaça real de interrupção de serviços essenciais de água, luz e internet, por falta de pagamento. Projetos estratégicos são interrompidos ou desacelerados: a verba da pesquisa é drenada para pagar o funcionamento da infraestrutura.

Na Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026, Lula vetou a garantia e o não contingenciamento de recursos para seguro rural e pesquisa. Esse ato obscurantista atinge o presente e o futuro da agropecuária: sem seguro para hoje, nem ciência para amanhã. Delata a limitação gerencial e política dos dirigentes da Embrapa e como agricultura e pesquisa não são prioridades do governo. Só mesmo a seleção natural e eleitoral pode dar jeito nisso.

(Resumo de artigo mais amplo, publicado no site da Revista Oeste)

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