Com demanda por biomassa, plantio de eucalipto atrai investidores em MT

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Acordo ambiental firmado pelo governo estadual deve acelerar a expansão do cultivo para atender geração de energia em usinas de etanol de milho

Plantio de eucalipto em Jaciara (MT) — Foto: Arefloresta/Divulgação

Por Camila Souza Ramos — São Paulo

A demanda crescente por biomassa em Mato Grosso para atender a necessidade de geração de energia de grandes agroindústrias, sobretudo as usinas de etanol de milho, tem atraído o interesse de produtores rurais, empresas e fundos de investimento para o plantio de eucalipto no Estado.

A atividade tem atraído neste ano interesse de fundos de investimento, agroindústrias, produtores rurais e empresas tradicionais de eucalipto, que passaram a mirar o mercado de biomassa, disse Fausto Takizawa, presidente do conselho de administração da Associação de Reflorestadores de Mato Grosso (Arefloresta) . “Todas essas alternativas já estão acontecendo”, afirmou.

O movimento acompanha a demanda crescente criada pela indústria de etanol de milho, e que foi acelerada por um novo marco regulatório, que proíbe as grandes agroindústrias do Estado de utilizarem biomassa de vegetação nativa para abastecer suas plantas de cogeração de energia.

Regulamentação

Em junho, o Ministério Público de Mato Grosso e o governo estadual assinaram um Termo de Compromisso Ambiental (TCA) que prevê acabar com a utilização de madeira de floresta nativa para uso como biomassa. O termo, aditado 11 dias após a primeira versão, define que, a partir de 2035, as grandes agroindústrias só poderão usar florestas plantadas.

Até o fim de 2025, o Estado tinha 165,62 mil hectares de eucalipto, segundo levantamento feito pelo Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea), a pedido da reportagem. O governo estadual estabeleceu a meta de ampliar a área para 700 mil hectares até 2040. Isso implica mais do que quadruplicar o cultivo.

O aumento do cultivo vai demandar investimentos de R$ 8,5 bilhões, nas contas da Arefloresta — ou R$ 610 milhões todo ano, até o fim da próxima década.

O Imea contabilizou uma expansão de 22 mil hectares de eucalipto no Estado em 2025. Já uma expedição da Arefloresta identificou que, no ano passado, a expansão foi de 27 mil hectares, o que representa investimentos de R$ 450 milhões. “Se continuar em 27 mil hectares ao ano, o risco de abastecimento não sustentável é iminente”, avaliou Takizawa.

Fausto Takizawa, presidente do conselho da Arefloresta: crescimento do plantio precisa acelerar — Foto: Divulgação

Para o dirigente da Arefloresta, a tendência para 2026 é de “leve aumento” no ritmo de plantio em função do acordo ambiental, mas “talvez não aumente ainda na escala necessária”.

A JFI Silvicultura, que presta serviço de plantio e cultivo de eucalipto para empresas, firmou contrato em junho com a Inpasa, maior produtora de etanol de milho do Brasil, para plantar, a partir de 2026, 3 mil hectares ao ano, por ao menos três anos. “E já há mais empresas que nos procuraram para conversar”, afirmou o sócio José Carlos de Almeida.

Marcelo Schmid, sócio-diretor do Grupo Index, que presta consultoria para empresas na área florestal, disse que vem sendo procurado por várias companhias e investidores neste ano. “Os [investidores] que já estão no Brasil estão olhando para esse novo mercado de etanol. Mas ainda com certa desconfiança. Agora, vão ter que se aproximar de empresas pouco conhecidas no mundo florestal”, afirmou. Para ele, o acordo ambiental acelerou o interesse pelo setor.

Em levantamento com clientes no Estado, ele estimou que mais de 60% da biomassa consumida por médias e grandes agroindústrias em Mato Grosso tenha origem em florestas nativas.

Perspectivas

Para Almeida, da JFI Silvicultura, o eucalipto pode avançar sobre áreas que foram ocupadas pela soja nos últimos anos, mas que não eram aptas à oleaginosa. “Quando a soja estava R$ 200 a saca, o pessoal pegava terra fraca e plantava. Mas agora, que caiu para R$ 100 a saca, não fecha a conta mais”, afirmou.

Outra alternativa são as pastagens degradadas. Apenas os pastos com alto nível de degradação, na classificação da Embrapa, ocupam 5,2 milhão de hectares em Mato Grosso, observou Takizawa.

Financiamento

O desafio é o financiamento, já que há poucas linhas com condições adequadas. “Há uma carência de crédito para o plantio de silvilcutura. E só dá receita depois de seis a sete anos”, disse Schmid.

Os principais custos são concentrados nos primeiros anos, como plantio, irrigação e controle de formigas. Segundo Almeida, o custo do plantio ao corte é estimado em R$ 15 mil o hectare. Em Mato Grosso, a despesa é mais elevada pela maior necessidade de irrigação.

Para Schmid, o eucalipto poderia ser uma “ótima estratégia de diversificação” para os agricultores, mas a falta de crédito “afasta pequenos produtores e médios, que preferem ficar com a lavoura e o boi, que dão receita todo ano”.

Uma opção pode ser o recurso da reposição florestal, previsto no Código Florestal, que obriga quem desmata a plantar o equivalente em metro cúbico — ou a comprar créditos de quem planta. Pelos cálculos de Takizawa, já seria possível ao menos dobrar a área com eucalipto em Mato Grosso considerando a necessidade de reposição de quem tem autorização de supressão a partir de 2025 no Estado.

Fonte: Globo Rural

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