ASSUNÇÃO – A rotina do estudante de medicina mineiro Lucas Alvarenga, de 24 anos, transformou-se em um pesadelo burocrático na última semana. Morando em Ciudad del Este há três anos, ele faz parte do contingente de mais de 260 mil brasileiros afetados pela maior crise financeira e política da história recente do Paraguai: a liquidação do Ueno Bank e a consequente renúncia do presidente do país, Santiago Peña.
“Quase todo o meu dinheiro está preso no banco. Não consigo pagar o aluguel, a mensalidade da faculdade e estou dependendo da ajuda de amigos para fazer compras de supermercado”, relata Alvarenga. O aplicativo da instituição, que concentrava as economias do estudante, está fora do ar desde que o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou a intervenção na fintech.
A quebra da instituição digital, que detinha cerca de 3 milhões de correntistas — o equivalente a 60% da população adulta paraguaia —, gerou um efeito cascata que paralisou o comércio na fronteira e desencadeou uma corrida bancária. O estopim da crise também foi político: o presidente Santiago Peña renunciou ao cargo sob forte pressão popular e um processo de impeachment por conflito de interesses, devido às suas ligações históricas como acionista do grupo controlador do banco.
Paralisação no comércio de fronteira
O impacto econômico cruzou a Ponte da Amizade e atingiu em cheio o turismo de compras em Ciudad del Este. Pequenos comerciantes brasileiros, que utilizavam as maquininhas de pagamento e as soluções digitais da fintech para receber de turistas, viram seu fluxo de caixa desaparecer do dia para o dia.
O impacto econômico cruzou a Ponte da Amizade e atingiu em cheio o turismo de compras em Ciudad del Este. Pequenos comerciantes brasileiros, que utilizavam as maquininhas de pagamento e as soluções digitais da fintech para receber de turistas, viram seu fluxo de caixa desaparecer do dia para o dia.
Com o colapso do sistema digital, as lojas da região fecharam o cerco: transações eletrônicas foram suspensas e a exigência de dinheiro em espécie (reais ou dólares) passou a ser a regra. “O movimento caiu pela metade nesta semana. O cliente de fora já não anda com muito dinheiro vivo por segurança, e sem Pix ou cartão operando normalmente, a venda não acontece”, explica a comerciante paranaense Amanda Costa, que gerencia uma loja de eletrônicos na fronteira.
Cronograma de ressarcimento
Para tentar conter o pânico financeiro e a desvalorização cambial, o governo paraguaio ativou o Fundo de Garantia de Depósitos (FGDP). O mecanismo assegura a devolução de valores até o teto de 75 salários mínimos paraguaios por CPF ou CNPJ (o equivalente a cerca de US$ 38 mil ou R$ 207 mil).
Para tentar conter o pânico financeiro e a desvalorização cambial, o governo paraguaio ativou o Fundo de Garantia de Depósitos (FGDP). O mecanismo assegura a devolução de valores até o teto de 75 salários mínimos paraguaios por CPF ou CNPJ (o equivalente a cerca de US$ 38 mil ou R$ 207 mil).
Uma lei de urgência aprovada pelo Congresso paraguaio permitiu o início do pagamento emergencial de parcelas de até 40 salários mínimos a partir desta sexta-feira (6). O dinheiro está sendo transferido diretamente para contas ativas que os clientes possuam em outras instituições financeiras tradicionais do país.
O Banco Central do Paraguai emitiu um comunicado oficial garantindo que a crise está restrita ao Ueno Bank e que o sistema financeiro do país segue sólido. No entanto, para os milhares de “brasiguaios” e estudantes que dependiam da agilidade da maior carteira digital do país, a prioridade agora é uma só: reaver o dinheiro e buscar alternativas para manter o custo de vida no país vizinho.







